Olhos e faces espalhados por Goiânia: conheça a arte de Decy Graffiti

Olhos e faces espalhados por Goiânia: conheça a arte de Decy Graffiti
Escrito por Paula Falcão no dia na categoria Cidade

Você já reparou olhos e rostos super expressivos grafitados por Goiânia?  Valtecy Ferreira Batista é o responsável por eles. É só observar de perto que verá a assinatura:  Decy, como é conhecido desde a infância. Pode ser um “D” estilizado ou mesmo o nome por extenso. Certamente, logo verá que os grafites têm a identidade do artista e vice-versa. Afinal, muitos o conhecem como Decy Graffiti.

Aos 43 anos, Decy Graffiti comemora 10 anos de sentimentos traduzidos por meio das cores da arte de rua. Começou pela vontade do filho de ser artista. No final das contas, foi o pai que, só iria para acompanhar, quem se saiu melhor do que a encomenda. Não sabe sequer contabilizar as obras espalhadas pela capital. Também não tem uma favorita. Pode parecer engraçado, mas diz que o que mais gosta é quando o tempo age e transforma a arte. Os descascados são bem-vindos.

Exposição Preto Cores

Agora, quem sempre observou ou foi observado pelos personagens da cidade poderá conhecê-los de outro modo. É que de 9 de abril a 19 de maio, a Vila Cultural Cora Coralina, no Centro de Goiânia, recebe a exposição gratuita”Preto Cores”,  que converge a trajetória de Decy por meio da curadoria de suas obras.

Por isso, além de conferir a exposição ao vivo, o Aproveite a cidade, te convida da imergir em tudo que o artista quis compartilhar conosco, em uma entrevista. Decy tem uma timidez simpática. Também é bom na arte de sorrir.  Contou as dificuldades e felicidades do trabalho. Além disso, falou  de reconhecimento, de exaltar negros e indígenas em seus painéis, e de como a visão sobre a arte urbana mudou em uma década.

Decy Graffiti e um de seus personagens retratados em um grafite, no Setor Universitário, em Goiânia | Foto: Carla Falcão

Aproveite a cidade | Nós queremos  saber um pouco da sua trajetória. Como você se descobriu artista?

Decy Graffiti| Na verdade, eu já trabalhava na área de comunicação visual, fazendo letreiros e desenhos, mas com pistolas compressoras. Meu filho sempre trabalhou comigo, e aos 13 anos ele disse que queria pintar na rua e fazer grafites. Comecei a acompanhá-lo, a pedido da mãe, e peguei gosto. Começou como hobby, pintando aos finais de semana, e depois se inverteu. Pintava todos os dias, menos aos finais de semana. E acabou que foi pegando uma dimensão e se tornando minha profissão, meu ganha pão, minha vida. E meu filho não continuou. Agora meu filho menor está pegando gosto (ele auxiliou no mais recente trabalho de Decy, em uma lanchonete na Praça Universitária).

 

Aproveite a cidade | Como você vê a evolução do seu trabalho?

Decy Graffiti| Desde o começo eu sempre me identifiquei desenhando faces, que eu sempre tive uma facilidade. A questão da escolha é bem natural. As minhas referências quase sempre são afros e indígenas. É bem variado mesmo. Eu sinto uma evolução quanto a técnica. Você vai fazendo e melhorando mais a técnica, mas é muito satisfatório você ver seu trabalho na cidade e ele permanecer um tempo.

 

Aproveite a cidade | Você tem noção de quantos grafites produzidos por você espalhados pela cidade? Você tem algum favorito?

Decy Graffiti| Não, não tenho ideia de quantos grafites já fiz em Goiânia, nem na minha vida. São muitos trabalhos. Eu não sei falar se tenho um favorito, até por que sempre tem novidade. Tem alguns que tiveram mais repercussão, que é quando acontece a junção da arte com a natureza, por exemplo, quando a árvore forma o cabelo da imagem, mas acho que não tenho nenhum favorito.

 

Decy Graffiti observa sua obra mais recente no Setor Universitário, em Goiânia | Foto: Carla Falcão

 

Aproveite a cidade | Mas teve algum mais inusitado ou que envolve alguma história inusitada?

Decy Graffiti| Teve um que eu fiz em Campo Grande (MT). Estava em férias e foi um trabalho que eu fiz e não tinha a expectativa com o que tinha por trás e o que iria acontecer, e no outro dia que tirei a fotografia, acabou captando um ângulo que a árvore completava o cabelo da personagem. E eu só percebi quando vi a foto. E eu postei e deu mais 11 mil compartilhamentos no Facebook. Depois, o cantor Marcelo Falcão, vocalista da banda O Rappa também postou, e deu mais repercussão ainda. Assim meu trabalho foi reconhecido internacionalmente, mesmo a minha pessoa não sendo tão conhecida. Mas meu trabalho é, em vários sites de street art do mundo.

 

Aproveite a cidade | Onde você já grafitou?

Decy Graffiti | Tenho trabalhos em Campo Grande, Bahia, Pernambuco e Brasília. Em Goiás, além de Goiânia, tem em Rio Verde e Itumbiara. Não dá pra saber se os grafites ainda estão nos locais, já que muitas vezes são apagados e eu nem tenho conhecimento.

 

Aproveite a cidade | Como funciona sua dinâmica em relação ao grafite e de colorir a cidade?

Decy Graffiti| Quando é um grafite mesmo, é algo que normalmente não tem autorização. Tem lugares que tenho autorização, normalmente verbal. E normalmente não planejo antecipadamente. Pego algumas referências, opinião do meu filho quando ele me acompanha, e faço o trabalho.

 

Aproveite a cidade | E quando começou a tatuar?

Decy Graffiti| A tatuagem veio depois. A maioria dos artistas acaba tendo essa opção. A arte urbana não tem trabalho constante, e a tatuagem é mais constante. Já tatuo há sete anos. É algo que considero até mais sério, porque não se remove com facilidade.

 

A ação do tempo é o que Decy Graffiti mais gosta de observar em uma obra. Para ele, os descascados contam uma história | Foto: Carla Falcão

 

Aproveite a cidade | Você pode contar por que tem tantos grafites espalhados pelo Setor Sul?

Decy Graffiti| Meu trabalho no Setor Sul veio através de outro artista, o André Morbeck. A gente pintou junto por aproximadamente dois anos. Primeiro, por que ele morava na região, e também por estarmos procurando maior tranquilidade para pintar. Usamos mais o Setor Sul como um laboratório. Não tinha nenhum projeto, com todo o custo nosso. Foi muito bom e uma ótima experiência. Mas o pessoal abandonou aquele espaço. Talvez por ser o fundo dos lotes. Algumas pessoas deram valor e outras nem tanto. Muitos painéis foram apagados, e de certa forma, é uma desvalorização dos trabalhos dos artistas.

 

Aproveite a cidade | Ao longo desses últimos 10 anos, em que você desenvolveu o seu trabalho, mudou a forma como as pessoas vêem a arte urbana? Você faz trabalhos por encomenda?

Decy Graffiti| Mudou, principalmente quando a arte urbana passou a ser percebida por pessoas da área, como arquitetos. Já recebi propostas, participeis de eventos como a Casa Cor. Muitas vezes, a pessoa quer na parede da casa, ou em um quarto, e esses trabalhos que, muitas vezes, sustentam o artista. Trabalhos maiores até acontecem, mas é mais difícil. Goiânia tem muitos bons artistas!

 

Um garoto com asas e um céu multicolorido é a última obra finalizada por Decy Graffiti | Foto: Carla Falcão

 

Aproveite a cidade | Qual sua expectativa para a exposição? O que as pessoas que forem conseguirão ver lá?

Decy Graffiti| É um repertório de obras antigas, mas também de obras recentes. Eu tenho um repertório de obras maiores. Meu trabalho, em sua maioria, é feito com spray sobre tela, mas em algumas telas menores eu utilizo um misto de spray e caneta Posca. Vários trabalhos inéditos estarão no local.

 

Aproveite a cidade | Você já sabe quantas obras estarão na exposição Preto Cores? E todas estarão à venda?

Decy Graffiti| Eu não tenho o número de obras que serão expostas, pois essa parte é do curador. E, sim, todas estarão à venda, mas não na Vila Cultural Cora Coralina, que é um espaço para exposição. Portanto, quem quiser comprar, passaremos o contato para isso.

 

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