#SalveJóquei: entenda a mobilização para preservar a sede do Jóquei Clube de Goiás

#SalveJóquei:  entenda a mobilização para preservar a sede do Jóquei Clube de Goiás
Escrito por Carlos Freitas no dia na categoria Cidade

Patrimônio da arquitetura brasileira, a sede do Jóquei Clube de Goiânia foi colocada à venda e pode ser destruída nos próximos meses. Presidente do Jóquei afirma que comercializar o terreno é a única forma de pagar dívidas. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás, estudantes e parte da sociedade civil são contrários à venda. O local foi projetado por Paulo Mendes da Rocha, maior arquiteto vivo do País.

 

Croqui de Paulo Mendes da Rocha com visão lateral da sede do Jóquei Clube de Goiás | Foto: archdaily

Mobilização popular exalta patrimônio

Pega de surpresa com a informação de que a sede do Jóquei Clube de Goiás,  está à venda e pode ser demolida, parte da população de Goiânia se mobiliza para exaltar o valor arquitetônico, histórico e afetivo do local para a cidade. A hashtag #salvejóquei é utilizada para designar um movimento que se organiza nas redes sociais e abraça o lugar localizado no Centro da capital, entre a Avenida Anhanguera e a Rua 3. De modo literal, isso ocorreu em mobilização na sede, no dia 3 de dezembro.

Todavia, pareceres de arquitetos, artistas, estudantes, políticos e dos Conselhos de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) e de Goiás (CAU/BR), além do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) não soam suficientes para quem vê a venda do terreno na região central como única alternativa para sanar as dívidas do Jóquei. A cifra ultrapassa R$ 40 milhões. A preservação do prédio não é uma prioridade.

Venda da sede do Jóquei no Centro não é ilegal

A negociação e eventual demolição da sede, projetada em 1962 por Paulo Mendes da Rocha, considerado o maior nome vivo da arquitetura brasileira, não são ilegais ou irregulares.  Trata-se de uma área privada, cuja construção não é tombada pelo IPHAN, apesar de estar na região de tombamento do traçado urbano da cidade. Esta restrição implica na avaliação por órgãos competentes sobre modificações naquela área, mas não impede, necessariamente, a demolição.

Uma publicação compartilhada por Leo Romano (@leoromanoarquitetura) em

Após a questão vir à tona na semana passada, o #aproveiteacidade entrou em contato com o presidente do Jóquei Clube de Goiás, o advogado Manoel de Oliveira Mota. Ele preferiu não falar naquele momento. Depois, não respondeu mensagens ou atendeu nossas ligações.

Em reportagem do jornal Popular, publicada em 29 de novembro, Mota confirmou que o local está à venda para sanar dívidas. A expectativa do conselho do clube é que o negócio seja concluído ainda neste ano. O dinheiro deve viabilizar a construção de uma nova sede para o Jóquei no Hipódromo da Lagoinha, na Cidade Jardim, área que também pertence ao clube.

Paulo Mendes da Rocha, em croqui do Jóquei Clube de Goiás, detalha distribuição de espaço da sede no Centro de Goiânia | Foto: archdaily

Um dos interessados na compra dos 21,9 mil m², segundo a publicação, é a Igreja Universal do Reino de Deus. Outro potencial cliente é um empresário do ramo atacadista. Mota contou, porém, que houve uma tentativa de negociação com a Prefeitura de Goiânia. A proposta ouvida foi trocar o prédio pela quitação dos débitos do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). O Jóquei não aceitou.

CAU/BR exalta valor arquitetônico da sede

Diante da perspectiva de a sede do Jóquei ser transformada em templo, supermercado ao galpão de distribuição, a Conselheira Federal por Goiás do Conselho Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), Lana Jubé, se manifestou. Ela afirma que mesmo que comprovado que a área pode ser vendida, isso não deveria acontecer por diversos motivos.

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“É um direito deles, venderem (o Jóquei), mas ali temos uma constituição de paisagem do Centro da cidade que deve ser preservada, pois a sede do clube é uma obra de altíssima qualidade, e que vale mais do que o próprio terreno. O valor patrimonial e histórico é inimaginável, já que Paulo Mendes é um patrimônio vivo”, argumentou Lana.

A conselheira do CAU/BR salienta que a publicidade do processo de venda até o final do ano foi o estopim para uma série de ações contínuas para a preservação do Jóquei. “Precisamos reconhecer os valores que temos, e apenas mostrando isso conseguiremos manter o valor urbano e o discurso de cidade”, afirmou Lana.

Ela exalta que junto com o Teatro Goiânia e a Vila Cultural Cora Coralina, o Jóquei poderia ser uma área para complementar um complexo de cultura na região.

 

Sobre Paulo Mendes da Rocha

Paulo Mendes da Rocha, de 89 anos, é natural de Vitória e faz parte da geração de arquitetos e urbanistas do modernismo brasileiro.  Em Goiânia, de acordo com informações do CAU/GO, além da sede do Jóquei Clube de Goiás, desenvolveu os projetos arquitetônicos do Estádio Serra Dourada, da Rodoviária e de uma residência localizada na Rua 83, no Centro. Mais tarde, a residência foi transformada em uma agência do Banco do Brasil.

Em fevereiro deste ano, Paulo Mendes da Rocha recebeu a Medalha de Ouro Real concedida pelo Royal Institute of British Architects (Riba). “Paulo Mendes da Rocha é um arquiteto de classe mundial e uma verdadeira lenda viva”, afirmou a presidente da entidade inglesa, na ocasião da premiação.

O arquiteto também é detentor do Prêmio Pritzker (2006) – considerado o “Nobel” da Arquitetura. Antes de Paulo, somente Oscar Niemeyer recebeu a honraria em 1988 – do Prêmio Mies van der Rohe (2000) e do Leão de Ouro da Bienal de Veneza (2016).

IPHAN reconhece representatividade do Jóquei

O IPHAN, em Brasília, considera necessário ser envolvido na elaboração de análise e parecer no que diz respeito aos valores atribuídos ao traçado urbano no qual o Jóquei se inclui. A superintendência do IPHAN em Goiás, segundo a nota, tem parecer técnico que reconhece a representatividade do edifício para Goiânia.

A sede do Jóquei era um local de encontros e ponto de referência da nova capital em suas décadas iniciais. Para o IPHAN, isto enaltece o potencial da área para obras de reuso e requalificação. A CAU/GO avaliou que a venda do terreno pode resultar em destruição do patrimônio.

“Independentemente de quem venha a adquirir o local ou do uso que ele venha a ter, é primordial que seja garantida a integridade da estrutura da edificação tal qual ela é hoje”, ressaltou a instituição em nota à imprensa na semana passada.

O movimento #salvejóquei reuniu aproximadamente 60 pessoas em frente à sede do clube, no último domingo (3). O segundo encontro está marcado para o dia 17 de dezembro, às 10h, no mesmo local. O evento no Facebook tinha até a tarde deste sábado (9), 157 pessoas confirmadas. A descrição exalta a memória afetiva e o peso arquitetônico do lugar para Goiânia.

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ENTREVISTA

Leo Romano: “Não podemos jogar fora tudo isso”

O arquiteto goiano Leo Romano – reconhecido internacionalmente – se manifestou contrário à venda do terreno da sede do Jóquei Clube de Goiás em uma série de posts no Instagram.  As publicações geraram comoção nas redes e estimularam a discussão sobre o assunto. Em entrevista ao #aproveiteacidade, por e-mail, ele avalia como a venda e possível demolição da construção impacta a identidade arquitetônica do Centro de Goiânia.  

Confira a íntegra!

Aproveite a cidade – Como você vê a possibilidade de venda e possível destruição da sede do Jóquei Clube de Goiás, em Goiânia?

Leo Romano – Eu vejo com muita tristeza, pois é um dos maiores patrimônios arquitetônicos que nós temos na cidade. É um projeto do Paulo Mendes da Rocha, arquiteto brasileiro que já ganhou o prêmio Pritzker. Destruir o Jóquei Clube de Goiás é como ter uma obra do Niemeyer, por exemplo, e querer jogar essa obra fora.

 

Aproveite a cidade – O que pode ser feito para impedir a venda da sede do Jóquei Clube de Goiás?

Leo Romano – Eu não acho que nós tenhamos que impedir a venda, acredito que nós temos que impedir a demolição. Não vejo problema no local ser transformado inclusive num templo, desde que a arquitetura seja respeitada e revitalizada.

Na minha opinião, o melhor seria ser transformado num centro cultural, tendo em vista a utilização de espaço pela cidade. Mas como é um patrimônio particular, se tiver que ser vendido, aquela pessoa ou empresa que comprar, independente do uso, que tentasse ao máximo preservar a arquitetura, sabendo da importância que tem para a arquitetura de Goiânia e de nosso País.

Aproveite a cidade- Caso seja vendido e a sede demolida, qual o tamanho da perda para Goiás e para o País?

Léo Romano – O local está entre alguns edifícios arquitetônicos importantes de Goiânia, de proporções pequenas, como o Teatro Goiânia, a escola que nós temos ao lado, onde foi a CASACOR no ano passado.

Então, eu acho que se for construir, por exemplo, um templo de Salomão que tem características arquitetônicas agigantadas, seria um prejuízo para a cidade. Seria um edifício cuja proporção do ponto de vista físico, é maior do que o espaço que a gente tem para que seja construído. Por isso, eu acho lamentável caso isso ocorra.

Aproveite a cidade – O projeto da sede do Jóquei Clube de Goiás nunca foi tombado? Você acredita que isso é um erro?

Léo Romano – Não acho que seja um erro nunca ter sido tombado. Na verdade, quando a gente fala em tombamento de edifícios, a gente pensa mais em um edifício histórico, com um maior distanciamento temporal. E ele sendo um edifício moderno, com linhas arquitetônicas modernas, talvez tenha passado despercebido, principalmente porque externamente é caracterizado por dois paredões de concreto. Mas internamente a arquitetura é muito rica.

Na verdade, eu acho que essa discussão, não quer dizer que estamos contra a construção de um templo, um shopping, de um centro cultural, etc. A gente está simplesmente a favor da preservação do edifício pelo valor que ele tem enquanto objeto de arquitetura e, por ser um edifício assinado pelo maior arquiteto vivo brasileiro. Acho que é uma questão de não jogar fora tudo isso.

Ainda não é um patrimônio tombado, mas é um patrimônio de valor incalculável. Espero que alguém possa tomar uma atitude em relação a isso, talvez a prefeitura, o Governo, ou algum benfeitor. Ou, se for vendido realmente, que quem comprar tente preservar ao máximo a arquitetura.

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