A Cerrado Cultural, em Brasília, recebe desde o último sábado (17/10) duas exposições que aproximam diferentes formas de construir imagens e compreender o mundo. A mostra Alfredo Volpi – Os lugares do olhar, com curadoria de Cinara Barbosa, reúne cerca de 25 pinturas do artista ítalo-brasileiro, enquanto Tawemücü Pu’tchi, da artista indígena Kuenan Mayu, apresenta 16 obras inspiradas em saberes ancestrais, espiritualidade e processos de transformação. As exposições abrem simultaneamente, das 11h às 14h, e seguem em cartaz até 13 de novembro, com entrada gratuita.
A exposição Alfredo Volpi – Os lugares do olhar reúne trabalhos produzidos entre as décadas de 1920 e 1980, incluindo obras que ainda não haviam sido apresentadas ao público. Com curadoria de Cinara Barbosa, a mostra acompanha as mudanças na linguagem pictórica do artista, desde as primeiras experiências com paisagens e cenas cotidianas até a investigação de cores, formas, linhas e superfícies.
Nascido em Lucca, na Itália, em 1896, Volpi chegou ao Brasil ainda criança e viveu a maior parte da vida em São Paulo. Antes de se dedicar à pintura, trabalhou como marceneiro, entalhador, encadernador e pintor-decorador. Autodidata, iniciou sua trajetória artística por volta de 1920, desenvolvendo uma produção marcada pela observação do cotidiano e pela experimentação com diferentes técnicas.
A relação com a paisagem de Itanhaém, no litoral paulista, foi importante para as transformações de seu trabalho, especialmente na maneira de representar a luz. Ao longo das décadas, elementos como casarios, fachadas, figuras em contraluz e frontões triangulares passaram a ser explorados não apenas como representações de lugares, mas também como composições de cor, ritmo e geometria.
A exposição aborda ainda o uso de materiais e técnicas, como a pintura a óleo e a têmpera, que Volpi preparava artesanalmente. A pincelada, os contornos irregulares e os campos de cor revelam aspectos do processo manual de criação.
Entre os elementos mais conhecidos de sua produção estão as bandeirinhas, associadas às festas populares, e as fachadas de casas, referências às cidades e aos povoados brasileiros. Na obra de Volpi, esses motivos são reorganizados em composições que exploram as possibilidades da pintura, em um percurso que não se limita a uma passagem linear da figuração à abstração.
A relação do artista com Brasília também integra o contexto da mostra. Volpi realizou o mural da Capela Nossa Senhora de Fátima, na 307/308 Sul, apagado em 1962. A exposição na Cerrado Cultural marca uma nova oportunidade de contato com sua produção na capital federal, mais de quatro décadas após sua última individual na cidade, realizada em 1980, na Galeria Oswald Goeldi, da Funarte.
Kuenan Mayu apresenta 16 obras
Em Tawemücü Pu’tchi, a artista indígena Kuenan Mayu reúne 16 obras apresentadas pela primeira vez em Brasília. Com curadoria de Mandú, a exposição estabelece um diálogo entre duas séries de sua produção, Eware e Pu’tchi, que abordam ancestralidade, espiritualidade, desejo e corporalidade a partir de referências culturais Magüta e Tariana.
Nascida no território indígena Tikuna Feijoal, no Amazonas, Kuenan desenvolve trabalhos que transitam entre pintura, instalação, performance e oralidade. Sua produção parte de saberes tradicionais e de uma compreensão da existência em que seres humanos, animais, plantas e entidades espirituais estão conectados por processos contínuos de transformação.
A série Eware remete à visão de mundo Magüta e a um território de coexistência entre seres humanos e não humanos. As obras também dialogam com narrativas de origem desse povo, incluindo a história de Ngutapa e Mapana e o episódio em que Yo’í pesca um povo inteiro nas águas sagradas do rio.
Já a série Pu’tchi aborda subjetividades e corporalidades associadas à expressão “dois espíritos”, relacionada a experiências que não encontram tradução direta para o português. Nesse conjunto, a artista aproxima corpo, desejo, ancestralidade e espiritualidade, explorando estados de passagem entre diferentes formas de existência.
A materialidade das obras é parte central da pesquisa de Kuenan. A artista utiliza o tururi, material obtido da entrecasca sagrada do Ngõ’e, além de pigmentos naturais como urucum, jenipapo e pacová. A técnica foi aprendida por meio da observação de mulheres mais velhas de sua comunidade.
As cores das obras se modificam com o tempo, acompanhando a ideia de transformação que atravessa a exposição. A lua ocupa lugar central nesse processo e também orienta a extração do tururi, realizada durante a fase cheia. Nas imagens, a lua aparece inicialmente separada do sol e, posteriormente, unida a ele, em uma composição que culmina em uma espécie de eclipse.
O título Tawemücü Pu’tchi faz referência a essa passagem e à ideia de uma lua que se transforma. A exposição articula dimensões naturais, espirituais e sexuais, apresentando a existência como um movimento contínuo entre corpos, tempos e mundos.
Trajetórias dos artistas
Alfredo Volpi participou de cinco edições da Bienal de Veneza e seis da Bienal de São Paulo. Em 1953, recebeu, ao lado de Di Cavalcanti, o prêmio de Melhor Pintor Nacional na segunda edição da Bienal paulista. Em 2024, sua trajetória foi tema da retrospectiva Alfredo Volpi: Lucca–São Paulo (1896–1988), realizada pelo Centro per l’Arte Contemporanea Luigi Pecci, na Itália, com mais de 70 obras.
Kuenan Mayu tem trabalhos apresentados em exposições como o 39º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), a primeira Trienal ARTCUT, no MAVI, em Santiago, no Chile, e Riverlines, na David Nolan Gallery, em Nova York. Suas obras integram coleções do Museu das Culturas Indígenas, em São Paulo, do MAVI UC, em Santiago, e da Pinacoteca do Estado do Ceará.
Serviço: Exposições Alfredo Volpi – Os lugares do olhar, e Tawemücü Pu’tchi, de Kuenan Mayu | Cerrado Cultural
Visitação: Até 13 de novembro
Horários: Segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 13h
Onde: Cerrado Cultural, SHIS QI 05, Chácara 10, Lago Sul, Brasília
Entrada: Gratuita
Mais informações: @cerrado.galeria e cerradogaleria.art









