por Daniella Fernandez e Elaine Leme
No sertão cearense, onde a aridez da seca faz emergir as ruínas de uma antiga cidade submersa, memória e afeto se entrelaçam em uma das trajetórias mais vitoriosas do cinema brasileiro recente. Dirigido por Allan Deberton e estrelado pelo estreante Yuri Gomes, Feito Pipa foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional, e estreia nas salas nacionais no dia 5 de novembro.
Vamos falar de paternidade?
No centro de Feito Pipa está uma história muito sensível. A narrativa acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 12 anos apaixonado por futebol e livre em suas descobertas, criado com amor e respeito por sua avó, Dona Dilma (Teca Pereira). Quando a idosa passa a enfrentar o avanço do Alzheimer, surge para o garoto a dura possibilidade de ter que ir morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), um homem de temperamento fechado, marcado por ausências, silêncios e expectativas difíceis de conciliar com a essência e os desejos do filho.
Em meio às paisagens poéticas da cidade de Quixadá, no sertão cearense, a obra se constrói como um manifesto afetivo sobre o amadurecimento, o direito de ser e a força das redes de apoio familiar no Nordeste.
Atuando no longa como o intérprete desse pai distante e também na função de produtor associado, Lázaro Ramos traz para o centro da tela um debate urgente sobre as contradições masculinas e a desconstrução de amarras sociais.
Durante a pré-estreia do filme, o ator refletiu sobre como o longa nos convoca a olhar para dentro, afirmando que “cada vez que assisto ao filme, percebo como a delicadeza da direção do Allan faz com que a gente se veja, se perceba e identifique as amarras que ainda existem nas nossas formas de exercer a paternidade”.
Para Lázaro, a intenção ao compor o personagem foi fugir dos estereótipos do vilão rígido para buscar uma humanização que provocasse uma identificação sincera no espectador. “Ao longo dos ensaios e das conversas com o Allan, eu queria mostrar a dificuldade desse homem de amar livremente o próprio filho. Batista deseja para ele uma vida morna, mediana, enquanto o filho quer brilhar e seguir o próprio caminho. Então, cada olhar e cada fala foram muito pensados para transmitir esse conflito”, explicou o ator.
A busca por complexidade também aparece na forma como o filme retrata as famílias brasileiras contemporâneas.
Lázaro lembra que o tema da paternidade ainda é pouco explorado e que a paternidade negra tem lugar importante nessa reflexão: “felizmente a gente fala muito sobre maternidade, mas ainda fala pouco sobre paternidade. Muitas vezes falamos do pai ausente ou do pai herói, mas não temos tantos personagens que sejam pais em conflito, como Batista. Acho muito importante dar mais complexidade a essa representação. E não há como deixar de considerar a questão racial: sou um homem preto interpretando esse personagem, então a paternidade negra também entra nessa reflexão”.
O afeto dos bastidores
Fora da tela, a densidade dramática dá lugar à leveza na relação entre Lázaro Ramos e o jovem Yuri Gomes, que assim como seu personagem também tem 12 anos, que compartilham uma raiz artística marcante no tradicional Projeto Axé, em Salvador.
Lázaro relembrou com carinho essa sintonia imediata, destacando a bagagem baiana e a intuição do estreante: “A sintonia com o Yuri surgiu imediatamente. Ele também é um ator que começou muito cedo no teatro, como eu. Nossas primeiras conversas foram sobre fazer teatro, a relação dele com a dança e a nossa baianidade. O humor também nos aproximou muito. Era muito lindo acompanhar a inteligência cênica do Yuri. Às vezes, ele se recusava a fazer alguma coisa e nos levava por caminhos muito mais autênticos do que os planejados”.
Selecionado entre mais de 700 crianças em testes realizados pelo Nordeste, Yuri Gomes encantou a equipe por sua capacidade rara de carregar emoções profundas com espontaneidade.
O próprio ator mirim, ao falar sobre a experiência de dar vida ao protagonista, revelou a identificação imediata que teve com o roteiro: “Quando eu recebi a notícia, fiquei muito feliz de coração. O Gugu é um personagem com quem me identifico muito, que representa a minha história de verdade, de um menino criado pela sua avó. Ele é um personagem que sofre muito, mas apesar de tudo ele luta contra isso, ele resiste e é sempre bom não desistir e acreditar nos seus sonhos”.
A mesma verdade se estende à cumplicidade construída entre Yuri e a veterana Teca Pereira, que entrega uma interpretação comovente no papel de Dona Dilma.
A atriz se dedicou a uma intensa pesquisa com médicos neurologistas para calibrar com delicadeza o avanço do Alzheimer da personagem, mas destaca que a grande força do trabalho esteve no laço afetivo estabelecido com Yuri.
Os dois se aproximaram durante os ensaios conduzidos pela diretora de elenco Luciana Vieira, em que a primeira dinâmica proposta foi colocar Yuri para trançar o cabelo de Teca, uma escolha inspirada nas habilidades que o garoto aprendeu com sua tia trancista na Bahia. “Em vez de começar essa relação pela racionalidade, eles começaram a se conhecer pelo corpo, pelo gesto e pelo toque”, relatou Luciana, para quem o afeto real transparece na tela.
Sobre a experiência, Teca concluiu com emoção: “Muitas pessoas se sensibilizam ao se identificar com o amor dedicado de uma criança sensível pela avó. Eu me sinto bastante orgulhosa por ter me conectado à Dilma. Levo Dilma comigo pro resto da minha vida”.
Costurando todas essas atuações, o diretor cearense Allan Deberton utiliza o sertão contemporâneo de Quixadá como um motor narrativo e poético, distante de visões ultrapassadas sobre a região. Deberton explica que a imagem das ruínas da cidade submersa que reaparece com a seca serve como uma metáfora direta para a memória e o esquecimento de Dona Dilma.
“Existe uma relação muito bonita entre a memória da personagem e essa cidade que reaparece quando a água baixa. Enquanto ela começa a perder algumas lembranças, a paisagem faz o movimento oposto e traz à superfície algo que parecia desaparecido. O filme fala sobre uma família do interior do Ceará, mas aborda sentimentos universais”, refletiu o cineasta.
Feito Pipa a caminho do Oscar
A estreia nacional chega depois de uma passagem por mais de 50 festivais pelo mundo. No 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), o longa levou o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus.
Também conquistou o Prêmio Maguey de Melhor Filme e Melhor Interpretação no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara (México) e o prêmio de Melhor Interpretação no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (Colômbia).
No Brasil, foram cinco Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, entre eles Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Direção para Allan Deberton, Melhor Atriz para Teca Pereira e Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos, além de uma Menção Honrosa para Yuri Gomes. Tamanho prestígio culminou na escolha oficial de Feito Pipa para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, na categoria de Melhor Filme Internacional.
Celebrando o impacto do longa como o primeiro filme cearense escolhido para representar o país no Oscar, Allan Deberton enxerga a trajetória de Feito Pipa como uma afirmação da descentralização do cinema e do Nordeste como polo de transformação política e cultural.
“Feito Pipa revela a nossa cultura e evidencia uma forma muito particular de sentir, de viver e de expressar nossos sentimentos. Vejo essa escolha como um reconhecimento da força e da diversidade do cinema brasileiro e do potencial do nosso estado em promover e sustentar políticas públicas de valorização da cultura. É muito significativo ver uma produção nascida no Ceará ocupando esse espaço e levando consigo toda uma cadeia de pessoas que inspira a forma de pensar e fazer o cinema nordestino”, conclui o diretor.
Produzido pela Deberton Filmes e Biônica Filmes, e distribuído pela Paris Filmes, o longa chega aos cinemas no dia 5 de novembro, provando que o afeto e as histórias regionais têm a força de conectar o Brasil ao resto do mundo.